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Programas ajudam refugiados a achar trabalho qualificado

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Jacilio Saraiva | Valor Econômico

Com dificuldade para validar diplomas, profissionais experientes aceitam qualquer emprego.

Há pouco mais de três anos, Ali Ibrahim Hejazi, 31, saiu da Síria com a roupa do corpo. Ao chegar no Brasil, o ex-diplomata e advogado com doutorado em direito internacional precisou trabalhar como frentista de um posto de gasolina em São Paulo antes de virar caixa e gerente do local. Foi lá que começou a aprender português e aproveitou uma chance de fazer um curso de gestão de negócios, bancado por entidades como a Agência da ONU para Refugiados (Acnur).

Em 2018, um dos currículos distribuídos por novos amigos no país caiu nas mãos da empresa de prestação de serviços Osesp. Foi admitido como supervisor de área, ganhou uma coordenação depois de um ano e, recentemente, foi promovido a gerente operacional, função em que lidera 20 funcionários. “Eles me acolheram como refugiado e, principalmente, como um profissional”, diz o executivo, que fala cinco línguas.

O caso de Hejazi ainda é raro no Brasil. Geralmente, refugiados com qualificação no exterior não alcançam posições de liderança rapidamente. A maioria permanece em cargos aquém da capacidade, por conta da falta de documentos e diplomas, muitas vezes extraviados durante a fuga do país de origem, ou devido aos poucos contatos que dispõem nas cidades onde reiniciam a vida. Para mudar esse quadro, grandes empresas começam a montar programas de contratação e treinamentos a fim de descobrir talentos entre uma população que cresce em escalada.

Dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), órgão ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, apontam que o Brasil reconheceu, em 2018, um total de 1.086 refugiados, atingindo a marca de 11,2 mil pessoas em situação de refúgio no país. Desse total, os sírios representam 36%, antes dos congoleses (15%) e angolanos (9%). O ano passado também bateu recordes de solicitações, impulsionadas pelo fluxo de venezuelanos. Foram mais de 80 mil pedidos, sendo 61,6 mil da Venezuela, seguidos do Haiti (7 mil), Cuba (2,7 mil), China (1,4 mil) e Bengala (947), território entre a Índia e Bangladesh que virou rota de fuga dos rohingya, minoria muçulmana perseguida em Mianmar, de maioria budista.

No Brasil, os Estados com o maior volume de encaminhamentos em 2018 foram Roraima (50,7 mil), que processou quase 16 mil petições em 2017, com um salto de mais de 300% em um ano, seguido pelo Amazonas (10,5 mil) e São Paulo (9,9 mil).

“Nossas vagas são disponibilizadas para todos”, diz Andreia Dutra, diretora presidente da multinacional de serviços Sodexo On-site Brasil. “No processo de seleção, avaliamos competências, sem discriminar por grupos de pessoas.” Com 44 mil colaboradores no Brasil, o grupo tem 135 funcionários da Venezuela, Angola, Congo, Haiti, Iraque e Paquistão – há três anos, eram 30. A meta é chegar a 300 profissionais refugiados até 2020, em quatro países da América Latina, incluindo o Brasil. A companhia costurou uma parceria com a Tent Partnership for Refugee (Tent), rede global que mobiliza empresas para apoiar a causa humanitária em todo o mundo.

Para facilitar a adaptação dos colaboradores, a Sodexo criou cartilhas para gestores e recém-contratados. O material apresenta questões como a diferença entre refugiado e imigrante e os motivos que os levaram a sair de suas terras. Para os novos empregados, explica aspectos da cultura local e esclarece dúvidas trabalhistas, como descontos em folha ou a abertura de contas bancárias.

Em abril, criou o projeto “Somos todos cuidadores”, que oferece um curso gratuito de copeiro hospitalar para refugiados da Venezuela. A formação de 40 horas teve duas edições e diplomou 58 alunos. “Ao final, todos recebem uma oportunidade na companhia.”

Ainda não há refugiados em postos de liderança, mas Andreia acredita que a mudança virá com o tempo. “A área de desenvolvimento organizacional identifica e prepara os talentos, além de contarmos com uma avaliação periódica de feedback”, diz a executiva, que começou na empresa em uma função operacional.

Na rede Blue Tree Hotels, com 22 empreendimentos em 17 cidades, as primeiras contratações começaram há um ano. Hoje, são sete refugiados empregados e mais sete devem ser contratados durante novembro, vindos do Congo, Cuba, Haiti e Venezuela. “O objetivo é que todas as unidades contem com pelo menos um colaborador nessa categoria até junho de 2020”, diz a presidente Chieko Aoki. Os postos foram preenchidos em hotéis de Manaus (AM), Joinville (SC), São Paulo e Santo André (SP).

Em outubro, a empresa lançou o programa “Viver sem fronteiras, construindo juntos o bem-receber” que, além da recolocação profissional, inclui plano de carreira, auxílio para a alfabetização em português e treinamento sobre o cargo a ser preenchido. Hoje, a maioria das colocações é para a área de governança, na função de arrumadeira.

A validação de diplomas no Brasil é um ponto que poderia ser melhorado para destravar admissões, diz Chieko, que mantém parcerias com ONGs que indicam os candidatos. “As contratações contribuem para o aumento da diversidade. Toda a equipe ganha, pois passamos a ter contato com culturas diferentes”, analisa.

A congolense Lysette Okoma Kitete, no Brasil desde 2014, foi efetivada em fevereiro como arrumadeira, mas já fez um curso interno para desenvolver habilidades de recepcionista. “Minha maior dificuldade antes de encontrar trabalho foi o tempo gasto na investigação e no reconhecimento da condição de refugiada”, lembra. Após essa etapa, outro obstáculo a vencer foi o idioma. “Como não sabia quase nada de português, era difícil desenvolver as respostas nos processos seletivos.”

Na opinião de Clarice Martins Costa, diretora de gente e desenvolvimento da Lojas Renner, além do ensino do português, é preciso recuperar a autoestima dos candidatos. No mês passado, o Instituto Lojas Renner, braço social da varejista, iniciou uma turma do projeto “Empoderando refugiadas” em Boa Vista (RR). A capacitação, para atendimento e vendas, aconteceu ao longo de quatro semanas, com 80 horas-aula. Vinte venezuelanas foram formadas.

A ação existe desde 2016 e já impactou mais de 300 pessoas em seis capitais. Também oferece cursos de modelagem e costura. O objetivo é oferecer qualificação profissional e contribuir para a inserção social de mulheres em situação de refúgio em qualquer empresa, diz Clarice. Embora o foco seja o público feminino, homens também são incluídos nas turmas.

A Lojas Renner, com 22,3 mil funcionários, já empregou mais de 50 refugiadas em companhias do grupo, como Renner, Camicado e Youcom, após os cursos. A maioria vem do Haiti, Angola, Cuba, Congo e Venezuela. A intenção é que esse quadro continue crescendo, afirma. Hoje, há oportunidades para assistentes e fiscais de loja. “Ainda não temos refugiadas em cargos de liderança, mas há ações sendo desenvolvidas nesse sentido.”

Para acelerar as contratações, a Renner organiza o calendário das aulas em datas próximas às inaugurações de unidades. “O conhecimento de idiomas é um diferencial quando há vagas em pontos de circulação de turistas”, afirma.

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